Mad Maudlin | Catherine Bott

Quando descobri, na internet, a Radio 3 da BBC o primeiro programa que ouvi foi o Early Music Show. Fiquei encantada. Ouvi vezes a mesma apresentação. Essa é uma das vantagens da radio da BBC na internet, os programas ficam uma semana disponível.

O Early Music é apresentado por Catherine Bott e Lucie Skeaping aos sábados e domingos e é uma delícia, mas há muitos outros programas igualmente maravilhosos nas rádios da BBC.

Procurem no You Tube Catherine Bott cantando Mad Maudlin, uma balada do século XVII de autor desconhecido (letra abaixo) pois vale a pena.

MAD MAUDLIN

To find my Tom of Bedlam
ten thousand years I’ll travel,
Mad Maudlin goes with dirty toes
to save her shoes from gravel.

Yet will I sing bonny boys,
bonny mad boys,
Bedlam boys are bonny;
they still go bare
and live by the air,
and want no drink nor money.

I now repent that ever
poor Tom was so distain’d,
my wits are lost since I him crossed,
which makes me thus go chain’d.

Yet will I sing……

My staff hath murder’d giants,
my bag a long knife carries,
to cut mince pies from children’s thights,
with which I feed the fairies.

Yet will I sing……

I went to Pluto’s kitchen,
to beg some food one morning,
and there I got souls piping hot,
with which the spits were turning.

Yet will I sing……

Then took I up a cauldron
where boiled ten thousand harlots,
‘twas full of flame, yet I drank the same
to the health of all such varlets.

Yet will I sing……

A spirit hot as lightning,
did in that journey guide me,
the sun did shake, and the moon pale quake,
as soon as e’er they spied me.

Yet will I sing……

No gipsy, slut or doxy
shall wind my mad Tom from me,
we’ll sleep all night, and with stars fight:
the fray will well become me.

Yet will I sing……

And when that I have beaten
the man in the moon to powder,
his dog I’ll take, and him I’ll make
as could not Daemon louder.

Yet will I sing……

Do álbum “Mad Songs” (1992, L’Oiseau-Lyre)

São seus livros, meu amor!

Este divertido ensaio de Rachel Donadio, “It’s Not You, It’s Your Books”, no New York Times, inicia contando a tentativa de uma amiga de Donadio de justificar sua decisão em separar-se do namorado, que ela ainda amava, é claro

“Can you believe it!” she shouted into the phone. “He hadn’t even heard of Pushkin!”

Uma outra teve um problema, como direi… inverso

“I did have to break up with one guy because he was very keen on Ayn Rand,” said Laura Miller, a book critic for Salon. “He was sweet and incredibly decent despite all the grandiosely heartless ‘philosophy’ he espoused, but it wasn’t even the ideology that did it. I just thought Rand was a hilariously bad writer, and past a certain point I couldn’t hide my amusement.”

E como esse vários outros exemplos de amores e amizades, nada literárias mas muito engraçadas. Leia o artigo todo aqui.

Livros ilustrados por Tarsila do Amaral

Pedro Abelardo, detalhe

Quando comprei os livros não percebi a assinatura nas ilustrações. O primeiro que vi na prateleira foi o Comentários (de bello gallico) de Cesar, que escolhi pensando ser uma tradução diferente da que eu já possuía. Li apenas uma parte da apresentação, que é muito interessante e não percebi que a tradução era a mesma, de Francisco Sotero do Reis. Acabei comprando todas que achei: Obras de Cícero, as Cartas de amor de Abelardo e Heloisa e Pensamentos de Marco Aurélio.

Mais tarde, olhando com calma e analisando para ver o que seria possível fazer em matéria de restauro dos livros, vi a assinatura. Fiquei na dúvida. As ilustrações seriam mesmo da Tarsila?! Comentando com Leticia recebi o que chamo de prova irrefutável de autoria “filhinha, frila a gente não recusa”. Esse trabalho de ilustração é citado nesta página no site da TV Cultura e no artigo “‘Fundo de gaveta’ revela Tarsila ilustradora” na Folha de S. Paulo em 19/01/2008, trecho abaixo:

O catálogo que registra a obra completa da modernista Tarsila do Amaral irá reunir cerca de 2.000 trabalhos, quase o dobro do resultado do primeiro levantamento sobre a produção da artista, publicado em 1975, e realizado pela crítica e curadora Aracy Amaral.
Organizada por uma parceira entre a produtora Base 7 e a Pinacoteca do Estado, a nova publicação ampliou consideravelmente o número de obras conhecidas da artista ao incorporar uma grande quantidade de ilustrações para livros e jornais.
“Nossa previsão era de um acréscimo de 20% de obras, mas encontramos muitas ilustrações. Só entre 1940 e 1944 ela ilustrou 29 livros para a série “Os Mestres do Pensamento”, dirigida por José Pérez”, conta Maria Eugênia Saturni, diretora da Base 7. Artigo completo aqui.

Cartas de amor, Abelardo e Heloisa

Cartas de amor, Abelardo e Heloisa

Pensamentos, Marco Aurélio

Obras, Cícero

Comentários (de bello gallico), Cesar

Quatro bibliotecas e um funeral

Lendo o primeiro parágrafo do artigo intitulado “Kassab fecha quatro bibliotecas em São Paulo”, de Renato Santiago – citado a seguir –, eu pergunto: qual a relevância da informação “véspera do Carnaval”? Será por que os paulistanos nessa data trocam sua leitura habitual do Diário Oficial pelo Momo e desse modo foram enganados?

“Com um decreto publicado no dia 1º de fevereiro – véspera do Carnaval – no Diário Oficial de São Paulo, o prefeito Gilberto Kassab (DEM) fechou quatro das 61 bibliotecas que existiam na cidade. A justificativa da administração municipal é a falta de frequentadores.”
Artigo completo na Folha Online, 18 de fevereiro de 2008

No segundo parágrafo, o repórter informa que “a decisão partiu da Secretaria da Cultura” e os motivos seriam “os poucos empréstimos” e que essas bibliotecas “não eram usadas pelos moradores dos bairros”. Não questiono as razões técnicas do fechamento mas quero saber mais sobre o motivo de tão poucos empréstimos e a baixa freqüência. Consultada sobre o assunto, a presidente do Conselho Regional de Biblioteconomia de São Paulo, Regina Celi de Sousa, diz que é “a má qualidade do acervo” e “ausência de serviços auxiliares”. Imagino que bibliotecas públicas tenham um critério, igual para todas, para adquirir acervo, e cheguei à conclusão, neste caso, que só poderia ser aquela alegação de praxe: falta de verba. Eu estava enganada; a senhora Regina Celi de Sousa afirma logo a seguir que “Não é só comprar livros. Tem que ter internet, tem que incentivar a leitura”.

Se não faltam livros, a razão de ser de uma biblioteca, vamos ao ponto seguinte: a internet. Uma ótima ferramenta, mas é só uma ferramenta, e na minha opinião não incentiva ninguém a ler; quem nos incentiva a ler são as pessoas (família, amigos, professores etc.). Resta apenas a pergunta: o que fazer para que as pessoas leiam mais? Além dos incentivos que já mencionei não me ocorre nenhum outro no momento. Tenho apenas uma certeza: não é possível obrigar as pessoas a gostarem de ler. Ler é prazer e, portanto, uma decisão de foro íntimo.

Eu lamento profundamente que bibliotecas fechem, mesmo no caso das quatro citadas que foram ou serão transformadas em centros ligados à cultura (lista abaixo), embora isso não tenha ficado claro no título nem nos primeiros parágrafos do artigo, únicas partes lidas por um grande número de pessoas, que por preguiça ou falta de tempo infelizmente ficam mal informadas.

O funeral do título não é das quatro bibliotecas que fecham suas portas mas sim de um povo que não faz a menor questão de ler.

  • Biblioteca Chácara do Castelo do Jardim da Glória (zona sul): será um depósito e centro de conservação do acervo de periódicos da biblioteca Mario de Andrade.
  • Biblioteca Arnaldo de Magalhães Giácomo no Tatuapé (zona leste): instalações e acervo serão incorporados a uma escola de educação infantil.
  • Biblioteca Zalina Rolim, na Vila Mariana (zona sul): se transformará em casa de cultura, com oficinas e cursos.
  • Biblioteca Cecília Meireles, na Lapa (zona oeste): se transformará no Centro de Memória e Convívio da Lapa.