Como os irlandeses salvaram a civilização

Enquanto o Império Romano desmoronava, na Irlanda monges copiavam a história da humanidade. Copiaram todos os livros de que dispunham – não só os Evangelhos mas também literatura secular, como clássicos gregos e latinos – não se importavam em arder no inferno. A escrita e a leitura eram uma novidade e um prazer para eles. Esse prazer e, às vezes o cansaço ou a decepção com o trabalho de escriba ficaram descritos nas margens, na maioria quase sempre generosas, dos antigos códices. Um jovem escriba, não se sabe se monge ou só estudante, divaga:

Todos querem saber
Quem vai dormir com a ama.
E tudo o que ela sabe
É que sozinha não vai para cama.

Na página de outro livro, um reclama da caligrafia do colega:

É fácil perceber a mão de Gabriel aqui.

Outro, cansado de copiar grego antigo, amaldiçoa:

Isso há de chegar ao fim – maldição!

Percebe-se que os monges não eram meros copistas; entendiam o que estavam escrevendo, como este que, após copiar o trecho da morte de Heitor em Tróia, escreveu:

Muito me abala a morte aqui descrita.

E este monge, que me comoveu:

É triste pensar, livrinho branco, que há de chegar o dia em que alguém dirá, ao folhear tuas páginas: “A mão que isto escreveu já não existe.”.

Eu os imagino em noites frias na torre redonda em Glendalough, com seus preciosos livros, escondidos e rezando para que o mar levasse embora os vikings. Estes, quando o mar estava calmo, invadiam a costa e saqueavam tudo e por serem iletrados, destruíam livros para roubar as pedras engastadas em suas capas.

Corta o vento esta noite,
Branqueia os cabelos do mar no açoite.
De homens cruéis não serei alvo;
Nesse mar bravio, estarei salvo.

Os vikings venceram. Ficaram uns dois séculos na Irlanda. Fundaram cidades – Dublin, Cork, Wexford, Waterford etc. Os monges irlandeses salvaram o que puderam e saíram pelo mundo com seus livros.

  • Meus comentários são sobre o livro Como os irlandeses salvaram a civilização de Thomas Cahill, tradução de José Roberto O’Shea.
  • Meu texto foi revisto por Mary Burns, minha amiga e revisora, de Engenheiro Marsilac.
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