Uma (?) história de amor

Esta história de amor foi publicada em 2004 no meu primeiro blog – o MiOmbligo, presente de Dona D – que mais tarde tornou-se The Residence of the Gods e na sequencia My PillowBook. Todos desativados ou em fase de desativação no ano da graça de 2015.

Fonte Bodoni, moderna

Há pouco tempo li Jorge Luis Borges, esplendor e derrota de María Esther Vázquez, escritora e amiga de Borges. O livro foi escrito com amor, com admiração mas reconhecendo os defeitos. No meio da leitura descobri outra história de amor – de Franco María Ricci e os caracteres Bodoni.

Franco María Ricci tinha em Parma uma pequena editora onde os livros eram impressos em papel Fabriano e editados com os caracteres Bodoni. Admivara a tal ponto os tipos inventados por Giambattista Bodoni que resolveu reeditar o Manuale Tipografico de 1818. Mas em toda história de amor há sempre um entrave. O único exemplar completo de que tinha conhecimento era da Biblioteca Nacional de Washington. Pediu emprestado o raro manual. Exigiram um milhão de dólares como caução. Fez o cheque e levou objeto de seu desejo. Não souberam avaliar a medida do amor.

A love story Franco María Ricci, Jorge Luis Borges e María Esther Vázquez

Quando Ricci descobriu Borges apaixonou-se novamente, queria editar sua obra inteira. Não era mais possível. Foi a Buenos Aires só para conhecer o mestre. Nada melhor do que a própria María Esther para contar:

No dia seguinte fomos à Biblioteca Nacional. Borges pegou no braço de Ricci, levou-o a seu paraíso particular de labirintos e falou com ele incansavelmente de livros de todas as épocas, de autores de todas as línguas; recitou-lhe poemas em espanhol, em inglês e em francês, o pai-nosso em anglo-saxão e terminou a atuação com os versos dedicados por Dante na Divina comédia ao conde Ugolino. Se Borges se tivesse proposto a seduzi-lo, talvez não tivesse conseguido fazê-lo tão bem. Ricci estava emocionado, assombrado, prostrado aos pés do mestre: “É o único escritor que fala o tempo todo de literatura e de nenhuma outra coisa.” Borges aceitou dar-lhe O congresso e dirigir a coleção [A biblioteca de Babel]; ficara, por seu turno, como enlevado do encanto entusiástico do admirador, de sua juventude e de sua exuberância. Achava-lhe engraçada a forma de vestir (calça jeans azul, camisa esporte, obviamente sem gravata, jaqueta de veludo preto e na lapela uma chamativa flor de plástico vermelha); admirava-lhe o corretíssimo francês, língua em que se entendiam, e a delicadeza de não usar, apesar de possuí-lo, o título de marquês, tão discreto nisso que só por casualidade nos inteiramos.

Estou apaixonada por Franco María Ricci. E não correspondida. Não tenho sequer um livro editado por ele… Histórias de amor não tem… FIM

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