Quatro bibliotecas e um funeral

Lendo o primeiro parágrafo do artigo intitulado “Kassab fecha quatro bibliotecas em São Paulo”, de Renato Santiago – citado a seguir –, eu pergunto: qual a relevância da informação “véspera do Carnaval”? Será por que os paulistanos nessa data trocam sua leitura habitual do Diário Oficial pelo Momo e desse modo foram enganados?

“Com um decreto publicado no dia 1º de fevereiro – véspera do Carnaval – no Diário Oficial de São Paulo, o prefeito Gilberto Kassab (DEM) fechou quatro das 61 bibliotecas que existiam na cidade. A justificativa da administração municipal é a falta de frequentadores.”
Artigo completo na Folha Online, 18 de fevereiro de 2008

No segundo parágrafo, o repórter informa que “a decisão partiu da Secretaria da Cultura” e os motivos seriam “os poucos empréstimos” e que essas bibliotecas “não eram usadas pelos moradores dos bairros”. Não questiono as razões técnicas do fechamento mas quero saber mais sobre o motivo de tão poucos empréstimos e a baixa freqüência. Consultada sobre o assunto, a presidente do Conselho Regional de Biblioteconomia de São Paulo, Regina Celi de Sousa, diz que é “a má qualidade do acervo” e “ausência de serviços auxiliares”. Imagino que bibliotecas públicas tenham um critério, igual para todas, para adquirir acervo, e cheguei à conclusão, neste caso, que só poderia ser aquela alegação de praxe: falta de verba. Eu estava enganada; a senhora Regina Celi de Sousa afirma logo a seguir que “Não é só comprar livros. Tem que ter internet, tem que incentivar a leitura”.

Se não faltam livros, a razão de ser de uma biblioteca, vamos ao ponto seguinte: a internet. Uma ótima ferramenta, mas é só uma ferramenta, e na minha opinião não incentiva ninguém a ler; quem nos incentiva a ler são as pessoas (família, amigos, professores etc.). Resta apenas a pergunta: o que fazer para que as pessoas leiam mais? Além dos incentivos que já mencionei não me ocorre nenhum outro no momento. Tenho apenas uma certeza: não é possível obrigar as pessoas a gostarem de ler. Ler é prazer e, portanto, uma decisão de foro íntimo.

Eu lamento profundamente que bibliotecas fechem, mesmo no caso das quatro citadas que foram ou serão transformadas em centros ligados à cultura (lista abaixo), embora isso não tenha ficado claro no título nem nos primeiros parágrafos do artigo, únicas partes lidas por um grande número de pessoas, que por preguiça ou falta de tempo infelizmente ficam mal informadas.

O funeral do título não é das quatro bibliotecas que fecham suas portas mas sim de um povo que não faz a menor questão de ler.

  • Biblioteca Chácara do Castelo do Jardim da Glória (zona sul): será um depósito e centro de conservação do acervo de periódicos da biblioteca Mario de Andrade.
  • Biblioteca Arnaldo de Magalhães Giácomo no Tatuapé (zona leste): instalações e acervo serão incorporados a uma escola de educação infantil.
  • Biblioteca Zalina Rolim, na Vila Mariana (zona sul): se transformará em casa de cultura, com oficinas e cursos.
  • Biblioteca Cecília Meireles, na Lapa (zona oeste): se transformará no Centro de Memória e Convívio da Lapa.
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5 comentários sobre “Quatro bibliotecas e um funeral

  1. Notícia triste, qualquer que seja o motivo. FEchamento de biblioteca me traz à memória, sempre, as medonhas cenas do Fahrenheit 451. O resultado não deixa de ser o mesmo.

  2. Tambosi,
    você me fez lembrar que tenho um post rascunhado sobre o Fahrenheit 451, um dos meus livros favorito…
    obrigada, beijos

    “Pode parar de contar – disse a mulher. Abriu um pouco os dedos de uma das mãos e na palma havia um objeto delgado.
    Um palito de fósforo.”

  3. Uma das frases mais bonitas que conheço é do Lobato (claaaro): “Um país se faz com homens e livros.”

    Somos deficientes em ambos os artigos, não por por falta de material, claro, mas pela má qualidade. Livros e homens vazios aos montes…

    Concordo com vc: internet não é incentivo pra leitura.

  4. Desculpem-me, quanta gente incompetente em postos de poder. Tirassem, os que não dinamizaram o acervo, não promoveram palestras, não criaram rodas de leituras, não fizeram um link com as escolas e a comunidade, ficaram sentados vendo sua biblioteca morrer. Vai ver que tem um monte de livros encapadinhos, no lugar certinho, dentro de todos padrõezinhos. Que triste! Deixaram canetar quatro bibliotecas da maior e mais rica cidade do Brasil. Será que chegou algum relatório em Brasília? Será que o MINISTRO DA CULTURA está sabendo disto? Acredito piamente que não.
    Livro fechado também não quer dizer muita coisa, mas diz tudo… Como estamos empobrecidos! Demitiria todos!

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