São seus livros, meu amor!

Este divertido ensaio de Rachel Donadio, “It’s Not You, It’s Your Books”, no New York Times, inicia contando a tentativa de uma amiga de Donadio de justificar sua decisão em separar-se do namorado, que ela ainda amava, é claro

“Can you believe it!” she shouted into the phone. “He hadn’t even heard of Pushkin!”

Uma outra teve um problema, como direi… inverso

“I did have to break up with one guy because he was very keen on Ayn Rand,” said Laura Miller, a book critic for Salon. “He was sweet and incredibly decent despite all the grandiosely heartless ‘philosophy’ he espoused, but it wasn’t even the ideology that did it. I just thought Rand was a hilariously bad writer, and past a certain point I couldn’t hide my amusement.”

E como esse vários outros exemplos de amores e amizades, nada literárias mas muito engraçadas. Leia o artigo todo aqui.

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Quatro bibliotecas e um funeral

Lendo o primeiro parágrafo do artigo intitulado “Kassab fecha quatro bibliotecas em São Paulo”, de Renato Santiago – citado a seguir –, eu pergunto: qual a relevância da informação “véspera do Carnaval”? Será por que os paulistanos nessa data trocam sua leitura habitual do Diário Oficial pelo Momo e desse modo foram enganados?

“Com um decreto publicado no dia 1º de fevereiro – véspera do Carnaval – no Diário Oficial de São Paulo, o prefeito Gilberto Kassab (DEM) fechou quatro das 61 bibliotecas que existiam na cidade. A justificativa da administração municipal é a falta de frequentadores.”
Artigo completo na Folha Online, 18 de fevereiro de 2008

No segundo parágrafo, o repórter informa que “a decisão partiu da Secretaria da Cultura” e os motivos seriam “os poucos empréstimos” e que essas bibliotecas “não eram usadas pelos moradores dos bairros”. Não questiono as razões técnicas do fechamento mas quero saber mais sobre o motivo de tão poucos empréstimos e a baixa freqüência. Consultada sobre o assunto, a presidente do Conselho Regional de Biblioteconomia de São Paulo, Regina Celi de Sousa, diz que é “a má qualidade do acervo” e “ausência de serviços auxiliares”. Imagino que bibliotecas públicas tenham um critério, igual para todas, para adquirir acervo, e cheguei à conclusão, neste caso, que só poderia ser aquela alegação de praxe: falta de verba. Eu estava enganada; a senhora Regina Celi de Sousa afirma logo a seguir que “Não é só comprar livros. Tem que ter internet, tem que incentivar a leitura”.

Se não faltam livros, a razão de ser de uma biblioteca, vamos ao ponto seguinte: a internet. Uma ótima ferramenta, mas é só uma ferramenta, e na minha opinião não incentiva ninguém a ler; quem nos incentiva a ler são as pessoas (família, amigos, professores etc.). Resta apenas a pergunta: o que fazer para que as pessoas leiam mais? Além dos incentivos que já mencionei não me ocorre nenhum outro no momento. Tenho apenas uma certeza: não é possível obrigar as pessoas a gostarem de ler. Ler é prazer e, portanto, uma decisão de foro íntimo.

Eu lamento profundamente que bibliotecas fechem, mesmo no caso das quatro citadas que foram ou serão transformadas em centros ligados à cultura (lista abaixo), embora isso não tenha ficado claro no título nem nos primeiros parágrafos do artigo, únicas partes lidas por um grande número de pessoas, que por preguiça ou falta de tempo infelizmente ficam mal informadas.

O funeral do título não é das quatro bibliotecas que fecham suas portas mas sim de um povo que não faz a menor questão de ler.

  • Biblioteca Chácara do Castelo do Jardim da Glória (zona sul): será um depósito e centro de conservação do acervo de periódicos da biblioteca Mario de Andrade.
  • Biblioteca Arnaldo de Magalhães Giácomo no Tatuapé (zona leste): instalações e acervo serão incorporados a uma escola de educação infantil.
  • Biblioteca Zalina Rolim, na Vila Mariana (zona sul): se transformará em casa de cultura, com oficinas e cursos.
  • Biblioteca Cecília Meireles, na Lapa (zona oeste): se transformará no Centro de Memória e Convívio da Lapa.

Uma (?) história de amor

Esta história de amor foi publicada em 2004 no meu primeiro blog – o MiOmbligo, presente de Dona D – que mais tarde tornou-se The Residence of the Gods e na sequencia My PillowBook. Todos desativados ou em fase de desativação no ano da graça de 2015.

Fonte Bodoni, moderna

Há pouco tempo li Jorge Luis Borges, esplendor e derrota de María Esther Vázquez, escritora e amiga de Borges. O livro foi escrito com amor, com admiração mas reconhecendo os defeitos. No meio da leitura descobri outra história de amor – de Franco María Ricci e os caracteres Bodoni.

Franco María Ricci tinha em Parma uma pequena editora onde os livros eram impressos em papel Fabriano e editados com os caracteres Bodoni. Admivara a tal ponto os tipos inventados por Giambattista Bodoni que resolveu reeditar o Manuale Tipografico de 1818. Mas em toda história de amor há sempre um entrave. O único exemplar completo de que tinha conhecimento era da Biblioteca Nacional de Washington. Pediu emprestado o raro manual. Exigiram um milhão de dólares como caução. Fez o cheque e levou objeto de seu desejo. Não souberam avaliar a medida do amor.

A love story Franco María Ricci, Jorge Luis Borges e María Esther Vázquez

Quando Ricci descobriu Borges apaixonou-se novamente, queria editar sua obra inteira. Não era mais possível. Foi a Buenos Aires só para conhecer o mestre. Nada melhor do que a própria María Esther para contar:

No dia seguinte fomos à Biblioteca Nacional. Borges pegou no braço de Ricci, levou-o a seu paraíso particular de labirintos e falou com ele incansavelmente de livros de todas as épocas, de autores de todas as línguas; recitou-lhe poemas em espanhol, em inglês e em francês, o pai-nosso em anglo-saxão e terminou a atuação com os versos dedicados por Dante na Divina comédia ao conde Ugolino. Se Borges se tivesse proposto a seduzi-lo, talvez não tivesse conseguido fazê-lo tão bem. Ricci estava emocionado, assombrado, prostrado aos pés do mestre: “É o único escritor que fala o tempo todo de literatura e de nenhuma outra coisa.” Borges aceitou dar-lhe O congresso e dirigir a coleção [A biblioteca de Babel]; ficara, por seu turno, como enlevado do encanto entusiástico do admirador, de sua juventude e de sua exuberância. Achava-lhe engraçada a forma de vestir (calça jeans azul, camisa esporte, obviamente sem gravata, jaqueta de veludo preto e na lapela uma chamativa flor de plástico vermelha); admirava-lhe o corretíssimo francês, língua em que se entendiam, e a delicadeza de não usar, apesar de possuí-lo, o título de marquês, tão discreto nisso que só por casualidade nos inteiramos.

Estou apaixonada por Franco María Ricci. E não correspondida. Não tenho sequer um livro editado por ele… Histórias de amor não tem… FIM